Rio
O processo de
implantação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em comunidades
antes
dominadas pelo tráfico de drogas é uma das grandes bandeiras do
governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. A antes inimaginável
retomada do Complexo do Alemão e da
Favela da Rocinha, bastiões do crime organizado no estado, ajudaram a
impulsionar a popularidade de Cabral e a fortalecer sua influência no
cenário nacional. Entretanto, apesar de sua representatividade, as
forças de segurança pública não se mostram satisfeitas com o tratamento
recebido do governo. A greve iniciada nesta sexta-feira por bombeiros,
policiais civis e PMs é a segunda revolta em menos de um ano. Em 2011,
bombeiros que lutavam por melhores condições de trabalho fizeram um
movimento amplamente apoiado pela população. Diante
deste cenário, fica a dúvida sobre até que ponto esta insatisfação pode
provocar uma grave crise na administração pública fluminense.
O
deputado estadual
Marcelo Freixo (PSOL), que recomendou o indiciamento de 235 pessoas
ligadas a
grupos paramilitares quando presidiu a CPI das Milícias na Alerj,
considera justa a reivindicação dos grevistas, mas não concorda com a
paralisação. De todo
modo, em meio aos questionamentos sobre a legalidade ou não do
movimento, ele
afirma que Cabral também deve ser responsabilizado, em caso de eventuais
transtornos.
"O Sérgio Cabral
está mais preocupado com a própria imagem do que com a população em si. Ele
deveria assumir o papel de chefe de Estado e parar para negociar. Se, em vez de
tentar desqualificá-los, adotasse uma postura conciliadora, duvido que
houvesse sequer ameaça de greve. E este não é o único problema. Apesar da precariedade
do sistema de transportes, o secretário Júlio Lopes permanece no cargo. A
situação da saúde e da educação também é péssima. Tudo isto depõe contra
ele", critica.
Embora considere
completamente inadequada a decisão de transferir o cabo Benevenuto Daciolo do
Quartel General do Corpo de Bombeiros, onde estava detido, para o presídio
Bangu 1, na Zona Oeste, o também deputado estadual Flávio Bolsonaro (PP), ligado aos militares, diz ver com
bons olhos a postura do governo na condução do caso.
“Falo isso com a maior
tranqüilidade, porque não faço parte da base aliada. O substitutivo
aprovado nesta quinta-feira representa grandes avanços para a categoria. É claro
que não é o ideal, mas, dentro das atuais circunstâncias, é o que é possível
fazer. Em uma negociação, ambas as partes tem que ceder. São cidadãos honestos,
mas estão agindo com a emoção. Não é oportuno. A população não quer a greve. É
preciso ser um pouco mais racional neste momento", pondera.
Quanto ao possível
desgaste da imagem de Sérgio Cabral, ele minimiza:
"Não é um problema
exclusivo desta administração. É algo que se acumulou ao longo de décadas e acabou
por explodir agora. Não creio em prejuízos".
Especialistas dizem que Cabral
pode se sair vitorioso
O professor e cientista
político Adriano de Freixo, do Instituto de Estudos Estratégicos da
Universidade Federal Fluminense (UFF), acredita que o episódio pode até ser
capitalizado de forma positiva pelo governador Sérgio Cabral. Segundo ele, a onda
de homicídios que eclodiu na Bahia após a paralisação dos agentes
criou uma imagem negativa do movimento perante a opinião pública, ao contrário
do que ocorreu ano passado, quando a mobilização dos Bombeiros ganhou forte
apoio popular. Deste modo, em meio ao medo do aumento da violência, uma reação firme
poderia ser vista como uma prova da força do Estado.

“O que pude sentir é que
há uma sensação geral de medo. Até mesmo alunos que geralmente têm certa
simpatia em relação a esse tipo de causa mostram-se reticentes. Noto uma tendência de
posicionamento contrário ao dos policiais. Há
uma estratégia de segurança bem definida, envolvendo a Força Nacional e o
Exército, para o caso de uma greve de grandes proporções. A presença ostensiva das
Forças Armadas, que têm uma reputação bastante positiva perante a população, poderia
até aumentar a sensação de proteção nas ruas. Que fique claro: greve de PM não
é greve, é motim. Uma postura firme seria muito bem
vista pela população”.
A opinião é compartilhada pelo também
professor e cientista político José Paulo Martins Junior,
do Deportamento de Estudos Políticos da Universidade Federal do Estado
do Rio de Janeiro (UNIRIO). "Tudo vai depender do desenrolar da
situação, mas acredito que, com um pouco de negociação, ele conseguirá
reenquadrar a polícia. E caso o que ocorreu na Bahia não se repita no
Rio, ele pode até ganhar alguns pontos com a população", conclui.
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